Jota Oliveira
Teria sido loura ou morena? Faz tanto tempo, que ninguém se lembra mais. Só resta, das histórias antigas, a lenda de que fora muito bonita. Maria da Lua vinha ao luar, atrás de homem. Isto é o que contam.
Pitanga chegou precedido de fama, por dois motivos: diz que – arre égua! – 1) era bonito; diz que (2) tinha os pés tão grandes que deslanchava em cima d’água, no Rio Feio, como um bote. Exageros, ficou provado. Somente era um debochado.
-Essa Maria da Lua, quando é que ela aparece? – perguntou Pitanga, o debochado, a Toinho, que tivera um entrevero com a aparição.
-Só quando tem vontade...
-Vontade de quê, hôme?
-De hôme.
-Se vié pra cima de mim vai sabê o que é macho. Apago o fogo dela pra sempre – engrandeceu-se Pitanga, ciente de que aquilo era somente fantasia dos caboclos.
Chegou o Natal, fazia já dois meses que Pitanga morava na fazenda Anu Branco, residência de dona Maria da Lua. Ela não morava bem na fazenda; fazia ponto no bico da encruzilhada, onde o morro terminava e tinha um pau d’alho que fedia de longe, a léguas, quando chovia.
Sozinho, Pitanga saiu na véspera do Natal e foi pra Bordoada, lugarejo de comércio pequeno, mas onde tinha três casas atrás de um tapume, uma cerca alta de tábuas pregadas umas junto das outras, de modo que ninguém de fora sabia o que se passava naquelas casas pra lá das tábuas. Somente atravessando o portão é que se tinha idéia; que se via, durante a tarde, a mulherada descansando em redes ou esteiras embaixo das árvores. Ali, há muitos anos, falava-se de Maria da Lua.
Embora incrédulo, Pitanga buscou informações sobre a história da mulher que aparecia e amava ao luar. “Deus me livre e guarde”- benzeu-se Lazinha, que tinha uma perna torta e era tida como dona de uma daquelas casas, que na verdade pertencia ao delegado Otacílio – mera coincidência no nome, se tiver qualquer semelhante vivo ou morto e mesmo que alguém tenha pregado na frente da casa uma tabuleta enorme com os dizeres: “Delegacia de Polícia”.
Lazinha contou que Maria da Lua tinha vivido não bem ali naquele buraco, Maria da Lua – rememorou Lazinha – tinha se chamado Maria da Glória e nem era mulher do mundo. Casada, tinha marido, que era “Dotor Jorge”- ninguém sabe se doutor-médico, se doutor-advogado, se doutor-engenheiro. Só que era “dotor” e pronto, que doutor dispensa apresentações maiores.
Estando “Dotor Jorge” em viagem, como costumeiramente fazia, e segundo relatou a Pitanga a má língua de Lazinha, Maria da Glória recebia a visita de Dito Lambido, que era o da vez. De outras vezes recebia visitas de João Barrigudo, Zezé da Preta, Joaquinzão, Faustino – um por dia. Jorge voltou antes do tempo, não gostou de ter encontrado Maria da Glória – em trajes menores e em sua própria cama – rebolando com o Dito Lambido. Dito, mais solto, escapuliu pela janela. Somente um ano depois, em noite de luar, foi que Maria reapareceu, translúcida, na garupa do cavalo de “Dotor Jorge”, que passou desde então a falar engrolado como se vivesse em susto permanente. Antes, conseguiu relatar o caso, disse ter sentido o perfume e ter ouvido a voz de Maria: - Jorge, meu bem, tô com saudade, vem comigo, vem...
Tendo ouvido a história, Pitanga caçoou:
-Seja viva ou seja morta, se fô muié e vi pra riba de mim eu traço.
-Num caçôa, moço, ocê num sabe quem é Maria da Lua – repreendeu Lazinha, enquanto Pitanga gargalhava.
Feito o que tinha que fazer, já no meio da noite Pitanga resolveu voltar pra fazenda. Olhou pro céu e se encantou com a Lua cheia. Aliviado, despreocupado, sentiu, quando se aproximava da encruzilhada, o cheiro de alho carregado pelo vento. Passou sob o pau d’alho e o cavalo relinchou. O animal parou, bufando. Relinchou de novo, empinou e Pitanga sentiu o perfume de lírio-do-brejo substituindo o fedor do alho, embora ali naquele alto não houvesse lírio nem brejo.
-Custô, mais apareceu um macho – ouviu uma voz de mulher falando bem no ouvido direito. Mãos geladas percorriam o corpo de Pitanga...
Ainda hoje, no asilo, Lazinha se lembra daquele moço “até formoso” que trabalhava na fazenda Anu Branco e que numa véspera de Natal aparecera em sua casa, querendo informação sobre a história de Maria da Lua, e que desapareceu naquela mesma noite após ter-se deitado com Valentina.
-Foi na vorta pra fazenda que arguma coisa aconteceu. Só o cavalo apareceu lá, com os arreio e tudo. Nunca mais ninguém viu o moço que se chamava, parece, Pitanga – conta Lazinha, estranhando que também – embora faça tanto tempo – Maria da Lua jamais voltasse a procurar homens ao luar naquela encruzilhada do pau d’alho.
|